Cirurgia refrativa — LASIK, PRK ou SMILE — está entre os procedimentos eletivos mais bem documentados da medicina, com taxas de satisfação acima de 95% em revisão de literatura mundial.1 A condição para esses números é simples: operar apenas pacientes que são candidatos.

Resumo executivo

A maior causa de complicações graves em cirurgia refrativa é a indicação inadequada — operar uma córnea que não devia ser operada. Topografia/tomografia da córnea, paquimetria, refração estável e exame de superfície ocular são os filtros que definem quem pode operar com segurança.

Por que a triagem é tão rigorosa

A cirurgia refrativa altera de forma permanente a estrutura da córnea. Não há "voltar atrás". Por isso a indicação tem que ser tecnicamente correta — não baseada apenas no desejo do paciente de se livrar dos óculos.

O risco mais temido é a ectasia corneana pós-cirúrgica: um afinamento e protrusão progressiva da córnea (semelhante ao ceratocone), que pode ocorrer meses ou anos após a cirurgia e levar à necessidade de transplante de córnea.2 Esse risco é praticamente eliminado quando a triagem identifica corretamente quem não deve operar.

Contraindicações absolutas

Nessas situações a cirurgia não deve ser realizada, independentemente do desejo do paciente:3

1. Ceratocone (e suspeita de ectasia subclínica)

É a contraindicação mais importante. O ceratocone provoca afinamento e abaulamento da córnea — operar uma córnea com ceratocone (mesmo em fase muito inicial) pode acelerar drasticamente a doença. A topografia/tomografia de córnea é o exame obrigatório para detectar essa condição antes da cirurgia.4

2. Córnea com espessura insuficiente (paquimetria reduzida)

O LASIK exige espessura corneana suficiente para criar o flap e ainda preservar uma quantidade segura de estroma residual após a ablação a laser. Quando a paquimetria é limítrofe, opta-se por PRK ou SMILE; quando é claramente insuficiente, nenhuma das técnicas é indicada.

3. Refração instável

O grau (miopia, hipermetropia ou astigmatismo) precisa estar estável há pelo menos 12 meses, com variação inferior a 0,50 dioptria. Pacientes que ainda estão "trocando o grau" não devem operar — uma correção feita sobre uma refração instável ficará obsoleta em poucos anos.5

4. Idade abaixo de 21 anos (sem indicação especial)

O grau costuma estabilizar após os 18-21 anos. A cirurgia em adolescentes ou jovens com refração ainda em mudança é rotineiramente contraindicada, exceto em casos muito específicos (anisometropia significativa com risco de ambliopia, por exemplo).

5. Doenças autoimunes ativas e descontroladas

Lúpus, artrite reumatoide, síndrome de Sjögren e outras doenças autoimunes em atividade aumentam o risco de cicatrização anormal e de complicações de superfície ocular. Pacientes com doença controlada e sem comprometimento ocular podem ser avaliados — mas o quadro precisa estar estável.6

6. Glaucoma não controlado

Cirurgia refrativa pode interferir na medida correta da pressão intraocular pós-operatória (a paquimetria muda, e isso afeta a tonometria). Em pacientes com glaucoma instável, o monitoramento adequado da doença fica comprometido.

7. Catarata clinicamente significativa

Se a perda visual é causada por catarata, a indicação muda completamente: o tratamento é a cirurgia de catarata com lente intraocular, não a cirurgia refrativa corneana.

8. Gestação e amamentação

Variações hormonais podem alterar temporariamente a refração e a hidratação corneana. A cirurgia é adiada até pelo menos 3-6 meses após o término da amamentação, com refração reestabilizada.

9. Olho seco severo

O LASIK pode piorar transitoriamente o olho seco. Em quadros severos pré-existentes, a cirurgia (especialmente o LASIK) é contraindicada — PRK ou SMILE podem ser considerados em casos selecionados, sempre após tratamento prévio do olho seco.

10. Infecções ou inflamações oculares ativas

Ceratite, uveíte, blefarite ativa ou qualquer infecção ocular em curso contraindicam temporariamente a cirurgia, até resolução completa.

Atenção · Ectasia corneana

O risco de ectasia pós-LASIK é o que mais preocupa cirurgiões refrativos. A escala de Randleman 2 avalia idade, paquimetria, leitura ceratométrica, espessura do estroma residual e topografia para classificar o risco antes da cirurgia. Casos de risco elevado são contraindicados ou redirecionados para PRK.

Contraindicações relativas

Situações que exigem avaliação individualizada — não impedem a cirurgia, mas mudam a discussão:

A topografia/tomografia define tudo

O exame mais importante do pré-operatório de cirurgia refrativa é a tomografia de córnea (Pentacam, Galilei ou similar). Ela mede curvatura anterior e posterior, paquimetria ponto a ponto e elevação — parâmetros que detectam ceratocone subclínico (sem sintoma e sem alteração visual ainda).

Se essa tomografia mostra padrão suspeito, a cirurgia é contraindicada — mesmo que o paciente esteja enxergando bem com óculos e mesmo que queira muito operar. Esse é o ponto não-negociável da especialidade.

O exame que mais protege o paciente da cirurgia refrativa é o exame que pode contraindicá-la.

A consulta pré-operatória

Uma avaliação pré-operatória completa de cirurgia refrativa inclui:

Com todos esses dados em mãos, a oftalmologista define se o paciente é candidato e qual técnica é a mais adequada — a discussão da técnica vem depois da definição da candidatura.

Quem decide?

A decisão final é compartilhada entre o paciente e a cirurgiã refrativa, com base em dados objetivos. Não é uma negociação: se os exames mostram contraindicação absoluta, a cirurgia não acontece — independentemente de quanto o paciente "queira" operar. Esse limite é o que faz da cirurgia refrativa um procedimento seguro.

Por outro lado, contraindicações relativas exigem conversa: o que vai mudar na vida do paciente, qual a tolerância dele a desconforto pós-operatório, qual é a expectativa realista. Esse alinhamento prévio é o que diferencia uma cirurgia bem-sucedida de uma frustração.