A lente intraocular (LIO) é o dispositivo que substitui o cristalino opacificado pela catarata. É implantada de forma definitiva e dura toda a vida. Por isso a escolha do modelo é uma das decisões mais importantes do pré-operatório — e por isso conversamos sobre ela com calma na avaliação.1
Quanto mais "premium" a LIO, mais ela tenta cobrir várias distâncias — mas nem todo olho tolera bem isso. Nenhuma LIO é a "melhor" universalmente. A escolha ideal depende dos exames pré-operatórios, da retina/córnea/pupila do paciente e do que ele quer fazer da vida visual depois da cirurgia.
O que é uma lente intraocular
A LIO é uma lente artificial dobrável (em geral de acrílico hidrofóbico ou hidrofílico) implantada dentro do olho, no mesmo lugar onde estava o cristalino natural. O modelo escolhido define em quais distâncias o paciente vai enxergar bem sem óculos — ou se vai precisar de óculos para alguma atividade.1
O cálculo do grau da LIO é feito por biometria ocular — exame de precisão milimétrica que mede o comprimento axial do olho, curvatura da córnea e profundidade da câmara anterior. Sem biometria boa, a melhor LIO do mundo não compensa.
Monofocal: uma distância, alta qualidade
Tem foco único. Em geral é ajustada para a visão de longe, com a expectativa de que o paciente use óculos para perto (leitura, celular). É a LIO com perfil óptico mais limpo — sem efeitos colaterais visuais relevantes — e a opção mais consagrada na prática clínica mundial.2
Indicada para: pacientes que aceitam usar óculos para alguma distância; pessoas com alterações de córnea, retina ou pupila que tornam outras LIOs menos previsíveis; quem dirige muito à noite ou tem profissão visualmente exigente. Limitação: necessidade de óculos para a distância não corrigida.
Tórica: corrige catarata e astigmatismo no mesmo ato
É uma LIO monofocal (ou multifocal) com correção adicional de astigmatismo regular. Quando o paciente tem astigmatismo significativo (mais ou menos a partir de 1.00 D), optar por uma LIO sem correção tórica significaria continuar usando óculos para enxergar bem mesmo de longe.3
O cálculo da LIO tórica e o seu posicionamento no eixo correto durante a cirurgia exigem precisão extra — incluindo marcação intraoperatória ou guiagem por imagem. Em córneas regulares, é uma das opções mais bem documentadas do arsenal moderno.
Multifocal: vários focos, menos óculos
Permite foco em mais de uma distância — em geral longe e perto, ou longe + intermediário + perto (LIO trifocal). O objetivo é reduzir significativamente a dependência de óculos no dia a dia.4
Trade-off: o desenho óptico que cria múltiplos focos também produz, em parte dos pacientes, disfotopsias — halos e brilhos noturnos ao redor de luzes. A maioria das pessoas se adapta com o tempo, mas certos perfis (motoristas noturnos, fotógrafos, pacientes com expectativas de "visão perfeita") não toleram bem. Por isso a multifocal exige córnea, retina e pupila bem avaliadas e expectativas alinhadas antes da cirurgia.
EDOF: foco estendido, intermediário forte
EDOF (Extended Depth of Focus, ou foco estendido) é uma categoria mais recente. Em vez de criar múltiplos pontos focais discretos como a multifocal, estende a faixa focal de forma contínua — com bom desempenho em distâncias intermediárias (computador, painel de carro, partituras de música), e perfil de disfotopsias geralmente menor que a multifocal.5
Pode exigir uso ocasional de óculos para leitura muito de perto, mas costuma equilibrar bem qualidade de imagem e independência de óculos para a maior parte das tarefas modernas. Excelente opção para profissionais que passam o dia em telas.
Como a escolha é feita em consulta
Não há fórmula única. A decisão considera:
- Exames pré-operatórios: biometria ocular, topografia de córnea (para detectar astigmatismo e ectasias), OCT de mácula (para excluir alterações da retina central que prejudicariam multifocais/EDOF).
- Estilo de vida: profissão, tempo em telas, frequência de direção noturna, hobbies.
- Expectativas: aceita usar óculos para alguma atividade? Quer "ver tudo sem óculos" a qualquer custo? Quer máxima qualidade de imagem mesmo que precise de óculos?
- Condições associadas: glaucoma, retinopatia diabética, DMRI ou ceratocone podem inviabilizar LIOs premium e indicar uma monofocal de qualidade.
- Custo: LIOs premium têm valor maior. A diferença pode ou não compensar conforme as variáveis acima.
A LIO certa não é a mais cara nem a mais nova — é a que faz mais sentido para o seu olho e para a sua vida. Por isso a conversa pré-operatória importa tanto.