O diabetes é a principal causa evitável de cegueira em adultos em idade ativa no Brasil e no mundo1. A retinopatia diabética é a complicação ocular mais conhecida — mas frequentemente subdiagnosticada, justamente por não doer e não dar sintomas no início.

Este artigo é para quem tem diabetes (tipo 1 ou tipo 2), para quem convive com um diabético na família, e para qualquer pessoa que queira entender por que o exame de fundo de olho deve fazer parte do calendário de acompanhamento do diabetes — tanto quanto a aferição de glicemia e pressão.

Resumo clínico

Todo paciente com diabetes tipo 2 deve fazer fundoscopia no momento do diagnóstico; no diabetes tipo 1, iniciar 5 anos após o diagnóstico. Sem alterações, repetir anualmente; com retinopatia já presente, com mais frequência conforme orientação do retinólogo2.

O que é a retinopatia diabética

A retina é uma fina camada de tecido nervoso no fundo do olho, com circulação sanguínea própria e altamente sensível à hiperglicemia. Retinopatia diabética é o conjunto de alterações que o diabetes provoca nos vasos retinianos — desde microaneurismas e hemorragias pontuais até a formação de vasos anômalos que rompem e sangram dentro do olho.

O termo "retinopatia" descreve a doença vascular da retina; "diabética" especifica a causa. Há outras retinopatias (hipertensiva, da prematuridade, esclerose múltipla etc.), com mecanismos distintos.

Por que o diabetes lesa a retina

A glicose elevada e persistente no sangue gera estresse oxidativo, glicação de proteínas estruturais e disfunção do endotélio (camada interna) dos vasos sanguíneos3. Na retina, esse processo:

Esse caminho, da microlesão capilar até a neovascularização, é a base da classificação clínica em estágios.

Os estágios da retinopatia diabética

A classificação mais usada divide a doença em retinopatia não-proliferativa (sem neovasos) e proliferativa (com neovasos)4.

RDNP leve
Não-proliferativa leve. Microaneurismas isolados. Geralmente assintomática. Acompanhamento anual.
RDNP moderada
Microaneurismas, hemorragias em chama de vela e exsudatos duros. Pode haver edema macular leve. Reavaliação em 6-12 meses.
RDNP grave
Hemorragias em múltiplos quadrantes, dilatação venosa em rosário, anormalidades microvasculares intra-retinianas (IRMA). Risco alto de progressão para forma proliferativa em meses. Avaliação em 2-4 meses, com discussão de tratamento.
RDP — Proliferativa
Presença de neovasos no disco óptico ou na retina periférica. Risco de hemorragia vítrea, descolamento tracional de retina e glaucoma neovascular. Indicação clara de tratamento (laser, anti-VEGF, vitrectomia conforme o caso).

Edema macular diabético

O edema macular é o acúmulo de líquido na mácula — área central da retina responsável pela visão de detalhes. Pode acontecer em qualquer estágio da retinopatia, inclusive nas formas iniciais. É a principal causa de queda da acuidade visual em pacientes com diabetes5.

O paciente com edema macular relata visão central distorcida, embaçamento que não melhora com óculos, dificuldade para ler, distorção de linhas retas. Em alguns casos a queda da visão é o primeiro sinal que leva ao diagnóstico de diabetes.

O exame que mais ajuda no diagnóstico e acompanhamento é a tomografia de coerência óptica (OCT) — faz cortes da mácula com alta resolução e quantifica o edema com precisão.

Como o rastreio é feito

O exame fundamental é o mapeamento de retina — fundoscopia indireta após dilatação da pupila com colírios. O retinólogo avalia retina central e periférica, vasos, disco óptico e mácula em busca das alterações descritas.

A periodicidade segue diretrizes da American Diabetes Association (ADA) e da AAO2,4:

Exames complementares como OCT (essencial para edema macular), angiografia fluoresceínica e retinografia colorida entram quando há alteração identificada e ajudam a planejar o tratamento.

Tratamentos atuais

A estratégia é escalonada e individualizada. Em todos os estágios, o controle glicêmico é a base. Tratamentos oftalmológicos somam, não substituem, esse controle.

1. Controle glicêmico rigoroso

Dois estudos clássicos demonstraram que reduzir a hemoglobina glicada (HbA1c) diminui a incidência e a progressão da retinopatia: o DCCT em diabetes tipo 16 e o UKPDS em diabetes tipo 27. O alvo individualizado de HbA1c é discutido com o médico endocrinologista; o oftalmologista reforça a importância clínica desse controle.

2. Injeções intravítreas (anti-VEGF)

Medicamentos como ranibizumabe, aflibercepte e bevacizumabe são injetados na cavidade vítrea para bloquear o VEGF e reduzir o edema macular e a neovascularização. Hoje são primeira linha para edema macular diabético e tratamento adjuvante na retinopatia proliferativa8. Geralmente exigem aplicações repetidas, com cronograma planejado pelo retinólogo.

3. Fotocoagulação a laser

Tratamento estabelecido há décadas, com forte evidência. A panfotocoagulação retiniana é aplicada em casos selecionados de retinopatia proliferativa para reduzir a produção de VEGF pela retina isquêmica9. O laser focal/grid pode ser usado em edema macular específico.

4. Vitrectomia

Cirurgia indicada quando há hemorragia vítrea persistente, descolamento tracional de retina ou complicações que o tratamento clínico não resolve. Procedimento ambulatorial, conduzido por retinólogo cirúrgico.

Como prevenir progressão

A retinopatia diabética não tem "cura" no sentido clássico — lesões estabelecidas raramente regridem por completo. O objetivo é estabilizar a doença e preservar a visão útil ao longo da vida. Os pilares são:

Procure atendimento se

Você tem diabetes e nota queda súbita de visão, manchas escuras flutuando no campo visual, flashes de luz ou cortina/sombra na visão. Esses sinais podem indicar hemorragia vítrea ou descolamento tracional — pedem avaliação retinológica em poucos dias.

Em uma frase

O exame de fundo de olho deve fazer parte do calendário do diabetes — assim como a glicemia e a pressão arterial. Diagnosticada cedo, a retinopatia diabética tem hoje um arsenal terapêutico que preserva visão.